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(Tau-te-King, 16)


segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Da Humildade e da Subserviência…


Em tempos em que a arrogância e a soberba, aliadas a uma autocentração epidémica, foram elevadas a matriz dominante, não raras vezes, se confunde uma qualidade exaltada, transversalmente, por várias religiões e filosofias esotéricas, muito estreita à descentração indispensável a uma salutar evolução espiritual, e uma característica muito própria de indivíduos com uma auto-estima deficitária ou, simplesmente, focalizados nos seus interesses particulares- a subserviência. Com efeito, ser-se humilde, saber-se manter a simplicidade, independentemente das venturas ou desventuras que a vida nos possa oferecer, é uma qualidade de quem tem consciência da sua ínfima importância num universo tão rico e tão vasto; ser-se subserviente é, cobardemente, negar-se o direito de se manter uma postura vertical perante um igual, por mais superior que este se considere, é demitir-se do dever cívico da sua individualidade, pela sua despersonalização. A humildade eleva quem a detém, a subserviência, como o prefixo que a denuncia, minora e rebaixa quem a pratica, relaxa o sujeito até ao ponto da passividade comodista. A este propósito, Josemaría Escrivã, fundador da Opus Dei, referia: "Essa falsa humildade é comodismo: assim, tão "humildezinho", vais abandonando direitos...que são deveres". Ser-se subserviente porque se receia a solidão, então, é um verdadeiro atentado à consciência e como postula Samuel Butler: "A consciência é muito bem educada. Deixa logo de falar com aqueles que não querem escutar o que ela tem a dizer." Já a arrogância é tão própria do egoísmo como da ignorância, de quem nunca saiu do seu umbigo para desfrutar do fantástico enriquecimento que o contacto com o mundo na sua diversidade nos proporciona. Há, também, um outro tipo de arrogância muito comum- a de quem renega as suas origens menos prestigiantes em termos sócio-culturais, simulando um triste e humilhante espectáculo de vaudeville com base na máscara ilusória que, soberba e artificialmente, ostenta perante os outros. Um autêntico humilde associa um índice máximo de liberdade a um nível de responsabilidade proporcional, enaltecendo o amor à autenticidade e efectivando uma absoluta rejeição da artificialidade, não se deslumbrando com a simulação, apreciando, deveras, comunicar seja com quem for com a mesma simplicidade e afabilidade, mas rejeitando a passividade. É alguém continuamente em construção, não crendo em discursos ou mecanismos vácuos e artificiais como motores da felicidade humana. Um humilde é um estóico, apesar de não fazer a apologia da dor, encara o sofrimento como algo natural na vida, como um dos móbeis fundamentais da sua evolução espiritual. A dificuldade surge-lhe como um desafio, não como um obstáculo. Um humilde é, assim, um ser positivo- traz dentro de si a positividade que transmite aos outros. Apesar de parecer um pensamento paradoxal, uma vez que a seguinte obra se centra no conceito de sucesso, frequentemente exultado, hoje, numa perspectiva puramente materialista, a obra O Segredo elege como protagonista o humilde, aquele cujos sonhos implicam a presença do outro, não se limitando a visualizar positivamente sonhos individualistas, autocentrados. Incorpora quem ama nas suas quimeras, quem não conhece, mas cujos traços distintivos o fazem encará-lo como um diferente pleno de igualdade que poderá ajudá-lo a encontrar o seu próprio Caminho. Valoriza mesmo quem não aprecia e por quem não é apreciado, encarando-os como possíveis instrumentos de Deus ou do Cosmos, conforme as crenças, que lhe permitem conhecer de forma mais apurada esse Caminho. O humilde é paciente, sabe que o enigma presente será a revelação do amanhã. Um humilde, ainda que possa ser um perfeccionista, tem clara consciência que será impossível algum dia deparar-se com a verdade absoluta e alcançar a perfeição, sabe que, nesse estádio, estão os seres muito superiores, já há muito afastados da efemeridade terrena, deslumbra-se com a incomensurável riqueza que é viver num mundo pleno de tensões, mas também de uma complexidade e diversidade fantásticas. Daí que desvalorize estereótipos, ideias feitas, preconceitos sobre os outros, generalizações simplistas, que julga serem profundamente injustas, arrogantes, óptimos catalisadores da negatividade própria e alheia.
Assim, um humilde não é, de todo, um ser passivo, amorfo, é antes um indivíduo pró-activo, que luta pelo que acredita de forma elevada, que mantém os seus ideais, mesmo que um exército se lhes oponha (como diria Cícero: "A minha consciência tem para mim mais peso do que a opinião do mundo inteiro"), mais ou menos veementemente, mas com a clara percepção de que é apenas um grânulo de areia na imensidão da vida.

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